Nova batalha da borracha.

Nestes dias de agonia e tensão para assegurar as vantagens comparativas do modelo Zona Franca de Manaus - premissas do empreender um polo industrial na floresta - um evento pleno de simbolismo, esperança e promessas aconteceu nas dependências da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Foi um seminário promovido em conjunto com a Federação da Agricultura do Amazonas para demonstrar a possibilidade efetiva do cultivo racional de seringueiras, resistentes ao mal das folhas, mais de um século depois do cultivo inteligente da Hevea brasiliensis na Malásia, que detonou as folias do látex na Amazônia, provocando a penúria e estagnação por várias décadas, depois do glamour que o Teatro Amazonas ficou para testemunhar.

Cultivo racional – A iniciativa representa nova batalha da borracha – seria a "base ecológica" da ZFM? - para replicar o modelo inglês na Ásia, no rastro das tentativas de Cosme Ferreira e Petronio Pinheiro, nos arredores de Manaus, nos anos 40 e 50 e no Pará, na década de 30, onde Henry Ford, irritado com o monopólio dos britânicos em relação ao produto que garantia os pneus de seus veículos,  imaginou reproduzir no beiradão amazônico  as fazendas de seringueiras nos moldes asiáticos. Idealizador da revolucionária linha de montagem, que reinventou o capitalismo, Ford queria controlar toda a cadeia de produção de seus lendários veículos. Ele dominava nos EUA minas de ferro e carvão, mas faltava produzir matéria-prima para seus pneus e todas as partes emborrachadas dos carros. Só não contava que a seringueira sofria com pragas de fungos e parasitas quando uma planta era plantada ao lado da outra: o mal das folhas, provocado pelo fungo Dothidella ulei, que infertilizava a produção do látex.  Na época, 32.000 nordestinos foram trazidos para trabalhar na Amazônia na coleta do látex para a produção da Borracha em Fordlândia e Belterra. Não alcançaram produzir 1% da demanda mundial.

A negligência da fartura - Única produtora da Hévea no planeta no Século XIX, a Amazônia hoje importa de São Paulo, Bahia e Mato Grosso a borracha para abastecer as indústrias locais como a de pneus instalada no Polo Industrial de Manaus. A fábrica da Neotec, prá ilustrar, só tem borracha produzida no Amazonas durante três meses do ano, apesar de uma estrutura de apoio pilotada com a ajuda do governo estadual que garante o preço mínimo de R$ 5, o quilo. Falta gente treinada e disposta a se embrenhar na floresta como faziam os retirantes nordestinos na virada do Século XIX. Foram mais de meio milhão fugido da seca desgastante que dissiparam nas florestas inóspitas da região. A produção de borracha amazônica, é bem verdade, há 100 anos, se manteve em patamares e custos elevados exatamente porque não tinha concorrência, uma condição excepcional que não foi capaz de despertar os cuidados e as providências que a instabilidade dessa situação de exceção e privilégios e, sua eventual finitude, exigiam. Por isso, a concorrência da produção asiática desencadeou um colapso que o bom senso deveria prever. Seria atávica a falta de planejamento nesta região de histórica fartura? O otimismo arrogante dos exploradores e investidores da produção da borracha amazônica deixava-os hipnotizados e incapazes de racionalizar o cultivo, promover o beneficiamento e a estruturação tecnológica e industrial que se impunha. Afinal, as condições de extração do leite gomífero eram extremamente desumanas e absolutamente inaceitáveis. E pensar que a produção amazônica era, a rigor, insuficiente para atender a demanda do mercado mundial, daí seu preço abusivo. A reprise dessa tragédia é uma eventualidade que nos deveria inquietar.

Embrapa, o rigor da Ciência - Desde 1974 em Manaus e focada sobremaneira na pesquisa da seringueira, a Embrapa disponibiliza, com o rigor da Ciência, aos empreendedores dos bionegócios novos cultivares de copa e de painel de seringueira resistentes ao mal das folhas dentro das exigências climáticas da sustentabilidade posto que a seringueira se afirma como alternativa eficiente para fixação de carbono. Nos estudos estão estimados os custos e vantagens de produção para seringueira no Amazonas, especialmente quando consorciadas a outras espécies dentre de arranjos produtivos mais eficientes. A Unidade, um espaço bucólico e fascinante no Km 30 da AM-010, atende à demandas do mercado local e regional dentro do programa de agricultura familiar, principalmente com a cultura da mandioca, cultivo de grãos e olericultura; do mercado nacional, com pesquisas em fruteiras tropicais, dendê, seringueira, espécies florestais, guaraná e piscicultura; e do internacional, com a produção de sementes de dendê.

Bases consolidadas - Seja lá qual for a denominação, Plano B, Base Ecológica, Vale da Biodiversidade..., o fato é que o modelo Zona Franca de Manaus já consolidou as bases de sua diversificação e interiorização à luz do banco de germoplasma amazônico, seu acervo mineral coerente com a produção de fertilizantes. O modelo já financia as cadeias produtivas, o ecoturismo e a qualificação de recursos humanos e as indústrias aqui instaladas podem racionalizar suas estratégias de produção, integração e complementariedade com o bioma tropical, numa nova batalha que começou com a borracha e fez de uma única espécie do patrimônio natural um ciclo de pujança que é factível resgatar, multiplicar na perspectiva racional da sustentabilidade e da prosperidade.